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Ginkgo biloba: memória, circulação e interações segundo as evidências

Ginkgo biloba: memória, circulação e interações segundo as evidências

Popular para a memória e circulação, o ginkgo biloba tem uma eficácia limitada e riscos reais. Saiba o que as provas dizem e as precauções a tomar.

7Fontes
4Alegações validadas
ProvávelEvidência dominante

O ESSENCIAL

Antes de avançar.

Popular para a memória e circulação, o ginkgo biloba tem uma eficácia limitada e riscos reais. Saiba o que as provas dizem e as precauções a tomar.

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O ginkgo biloba costuma ser vendido como a planta da memória e da circulação. A realidade, no entanto, é mais restrita e complexa. As pesquisas mais robustas não se debruçam sobre uma folha colhida, um pó qualquer ou uma cápsula genérica vendida na internet, mas sim sobre extratos de folhas altamente purificados e padronizados, fabricados através de um processo específico.

Para a prevenção da demência em idosos, os estudos mais sólidos não mostram qualquer benefício. Em algumas pessoas já com demência leve a moderada, um extrato padronizado específico demonstrou, por vezes, melhorias modestas em pontuações de cognição ou de autonomia. Contudo, a magnitude e a utilidade prática desse efeito continuam a ser um tema de debate na comunidade científica.

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De qual preparação estamos a falar?

Quando se lê um estudo sobre ginkgo, é fundamental perceber que a preparação utilizada é quase sempre um extrato seco e padronizado das folhas. A composição química de um produto de ginkgo pode variar drasticamente dependendo da parte da planta usada, do solvente para a extração, do processo de purificação e, crucialmente, da padronização final.

O extrato mais extensivamente estudado é o EGb 761, padronizado para conter aproximadamente 24% de glicosídeos flavonoides (compostos com ação antioxidante) e 6% de lactonas terpénicas (ginkgolídeos e bilobalida), que se acredita serem os principais responsáveis pelos seus efeitos farmacológicos, nomeadamente sobre o fluxo sanguíneo e o fator de ativação plaquetária.

Esta padronização não é um mero detalhe técnico. Garante que cada lote do produto contém uma quantidade consistente dos compostos ativos e limita a presença de substâncias indesejáveis, como o ácido ginkgólico, que é alergénico e potencialmente tóxico. Produtos de alta qualidade devem conter menos de 5 partes por milhão (ppm) de ácidos ginkgólicos. Um pó de folha simples, um chá ou um extrato não padronizado não são intercambiáveis com o EGb 761, e os resultados dos ensaios clínicos com este extrato não podem ser extrapolados para os outros produtos.

As sementes e a planta bruta são uma história completamente diferente. O NCCIH (Centro Nacional para a Saúde Complementar e Integrativa dos EUA) alerta que as sementes frescas são tóxicas quando ingeridas, devido à presença de ginkgotoxina, uma substância que pode provocar convulsões e até a morte. Efeitos adversos graves também foram relatados com sementes torradas ou com o consumo da planta não processada.

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) reconhece o uso medicinal bem estabelecido de extratos padronizados para a melhoria do declínio cognitivo associado à idade e da qualidade de vida na demência leve. No entanto, isto aplica-se apenas a produtos que cumprem os padrões farmacêuticos. Muitos suplementos alimentares no mercado não têm o mesmo nível de controlo de qualidade, e as suas alegações de saúde não são necessariamente comprovadas. No rótulo, o nome botânico (Ginkgo biloba L.), a parte usada (folha), a quantidade exata de extrato e as advertências de segurança são informações mais importantes do que a simples palavra "ginkgo".

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Memória: prevenção, envelhecimento normal e demência

A pergunta "o ginkgo melhora a memória?" é demasiado vaga, pois mistura situações clínicas muito distintas. Uma pessoa jovem e saudável que procura otimizar a sua performance cognitiva não é comparável a um idoso com um ligeiro esquecimento benigno, nem a alguém que recebeu um diagnóstico formal de demência.

Adultos saudáveis: um estímulo para o cérebro?

Muitos suplementos de ginkgo são comercializados com a promessa de melhorar a memória, o foco e a concentração em pessoas de todas as idades. No entanto, as evidências científicas para apoiar esta alegação em adultos jovens e saudáveis são, na melhor das hipóteses, fracas e inconsistentes. Alguns estudos pequenos e de curta duração sugeriram melhorias em tarefas de memória específicas, mas outros não encontraram qualquer efeito significativo quando comparado com placebo. As revisões sistemáticas da literatura concluem frequentemente que não existem provas convincentes de um benefício mensurável na função cognitiva de pessoas saudáveis.

Declínio cognitivo associado à idade (não patológico)

Com o envelhecimento, é normal sentir que a memória já não é o que era. Este declínio cognitivo ligeiro, não classificado como demência, foi um dos alvos do ginkgo. No entanto, aqui também, os resultados são desanimadores. O estudo de referência nesta área, o Ginkgo Evaluation of Memory (GEM), foi um ensaio clínico de grande dimensão que envolveu 3.069 adultos com 75 anos ou mais, com cognição normal ou com comprometimento cognitivo leve (CCL). Os participantes tomaram 120 mg de extrato de ginkgo (EGb 761) duas vezes por dia ou um placebo, e foram seguidos durante uma média de 6,1 anos. A conclusão foi inequívoca: o ginkgo não reduziu a incidência geral de demência nem a incidência específica da doença de Alzheimer. Também não demonstrou qualquer efeito na progressão do comprometimento cognitivo.

Demência já instalada: um quadro com mais nuances

É no tratamento sintomático da demência já diagnosticada (como a doença de Alzheimer ou a demência vascular) que o ginkgo apresenta os dados mais interessantes, embora modestos.

Uma revisão sistemática da Cochrane de 2023, que analisou múltiplos estudos, concluiu que, em pessoas com demência, o extrato EGb 761 na dose de 240 mg/dia provavelmente resulta numa pequena melhoria na cognição, nas atividades da vida diária e na impressão clínica global após 22 a 26 semanas de tratamento. É importante sublinhar a palavra "pequena": o ginkgo não cura, não trava a progressão da doença, nem recupera as funções perdidas. O benefício, quando existe, é sintomático e modesto. Os autores da revisão notaram que a relevância clínica deste pequeno efeito é incerta. Para o comprometimento cognitivo leve, as conclusões foram menos favoráveis, e os efeitos a longo prazo continuam incertos.

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"Circulação": o que se pode e o que não se pode dizer

"Melhora a circulação" é uma alegação de marketing popular, mas cientificamente imprecisa. O sistema circulatório é vasto, e os problemas podem ir desde pernas pesadas a uma doença arterial periférica grave. Um mecanismo plausível observado em laboratório – como um efeito no tónus dos vasos sanguíneos ou no stress oxidativo – não é suficiente para demonstrar um benefício real em doentes.

Claudicação intermitente

Esta condição, causada pela aterosclerose nas artérias das pernas, provoca dor ao caminhar (semelhante a uma cãibra) que alivia com o repouso. Dada a sua potencial ação na microcirculação, o ginkgo foi estudado como tratamento. No entanto, múltiplas revisões da literatura, incluindo da Cochrane, concluíram que o extrato de ginkgo não é mais eficaz do que o placebo para aumentar a distância que os doentes conseguem caminhar sem dor. Não substitui, de forma alguma, a cessação tabágica, o exercício físico supervisionado e os tratamentos médicos prescritos, que são a base do tratamento. Uma rotina de caminhada diária adaptada é fundamental.

Zumbido (Tinnitus)

O zumbido nos ouvidos é uma condição frustrante e uma razão comum para as pessoas procurarem o ginkgo. Apesar de alguns estudos mais antigos e pequenos terem sugerido um possível benefício, as revisões sistemáticas mais recentes e robustas são claras: não há evidências de alta qualidade que demonstrem que o ginkgo biloba seja eficaz para o tratamento do zumbido quando este é o sintoma principal.

Vertigem e tonturas

Para certos tipos de vertigem, como a vertigem vestibular, alguns estudos compararam o extrato EGb 761 com a beta-histina (um medicamento comum para esta condição) e encontraram eficácia semelhante. No entanto, a base de evidências é limitada e não suporta uma recomendação geral para todos os tipos de tontura. Uma tontura súbita, persistente ou acompanhada de outros sintomas neurológicos (fraqueza, dificuldade em falar) exige uma avaliação médica urgente.

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Interações e risco de hemorragia

Este é o aspeto de segurança mais importante do ginkgo biloba. Pensa-se que o ginkgo pode inibir o fator de ativação plaquetária (PAF), uma molécula envolvida na agregação das plaquetas e na formação de coágulos. Ao interferir com este processo, o ginkgo pode aumentar o risco de hemorragia, especialmente quando combinado com outros medicamentos que têm um efeito semelhante.

Anticoagulantes e Antiagregantes Plaquetários: A combinação de ginkgo com medicamentos como a varfarina, acenocumarol, apixabano, rivaroxabano, dabigatrana, aspirina ou clopidogrel é formalmente desaconselhada sem supervisão médica estrita. Os dados são complexos: alguns estudos farmacológicos controlados não encontraram uma interação clinicamente significativa com a varfarina, mas múltiplos relatos de caso e um grande estudo observacional com veteranos norte-americanos associaram o uso concomitante de ginkgo e varfarina a um risco 38% maior de eventos hemorrágicos. Esta divergência é um forte motivo para cautela e para procurar aconselhamento profissional, não para testar a combinação por conta própria. Para quem lida com interações, é útil conhecer outros exemplos, como os do hipericão e as suas múltiplas interações.

Anti-inflamatórios Não Esteroides (AINEs): Medicamentos como o ibuprofeno, naproxeno ou diclofenac, mesmo os de venda livre, também afetam a função plaquetária. O uso regular destes fármacos em conjunto com ginkgo pode aumentar aditivamente o risco de hemorragia gastrointestinal ou outros sangramentos.

Outras interações medicamentosas: O ginkgo pode ter um efeito ligeiro em algumas enzimas hepáticas do sistema citocromo P450 (como CYP3A4 e CYP2C9), responsáveis pelo metabolismo de muitos fármacos. Segundo a EMA, este efeito é provavelmente fraco para a maioria dos medicamentos, mas pode ser relevante para fármacos de margem terapêutica estreita (onde uma pequena alteração na concentração pode causar toxicidade ou ineficácia), como alguns antiepiléticos ou imunossupressores. Foi também relatada uma interação com o efavirenz (um antirretroviral), que pode ter a sua concentração reduzida pelo ginkgo. A combinação de vários suplementos, como curcuma e ginkgo, também deve ser discutida com um profissional.

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Quem deve evitar ou ter precaução com o Ginkgo biloba?

Devido aos seus efeitos e à falta de dados de segurança, certos grupos devem evitar o ginkgo:

  • Grávidas e lactantes: O ginkgo não é recomendado na gravidez e amamentação. O NCCIH indica que pode ser perigoso na gravidez, com risco teórico de trabalho de parto prematuro ou hemorragia excessiva durante o parto. Os dados sobre a passagem para o leite materno são limitados.
  • Pessoas com distúrbios da coagulação: Indivíduos com hemofilia, doença de von Willebrand ou outras coagulopatias têm um risco acrescido de hemorragia.
  • Pessoas a aguardar cirurgia: A recomendação habitual é interromper o uso de ginkgo pelo menos uma a duas semanas antes de uma cirurgia programada para minimizar o risco de sangramento excessivo.
  • Pessoas com epilepsia ou histórico de convulsões: A ginkgotoxina, presente principalmente nas sementes mas potencialmente também em extratos mal purificados, pode baixar o limiar convulsivo e interferir com a eficácia de medicamentos antiepiléticos.
  • Crianças: A segurança do ginkgo não foi estabelecida em crianças.
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Como escolher um suplemento e qual a dose?

Se, após aconselhamento profissional, decidir experimentar um suplemento de ginkgo, a escolha do produto é fundamental.

  1. 01Verifique a padronização: Procure um extrato de folha padronizado para conter cerca de 24% de glicosídeos flavonoides e 6% de lactonas terpénicas. Esta informação deve estar claramente no rótulo. Produtos sem esta especificação são de qualidade e eficácia incertas.
  2. 02Confirme a pureza: Escolha marcas reputadas que realizem testes de pureza por terceiros para garantir que o produto está livre de contaminantes (como metais pesados, pesticidas) e que o nível de ácidos ginkgólicos é inferior a 5 ppm.
  3. 03Dose estudada: Não existe uma dose universal. Nos estudos sobre demência, a dose mais comummente associada a algum benefício foi de 240 mg por dia de extrato EGb 761, geralmente dividida em duas tomas (120 mg de manhã e 120 mg à noite). Começar com uma dose mais baixa pode ajudar a avaliar a tolerância.
  4. 04Tenha paciência: O ginkgo não é um estimulante de efeito imediato como a cafeína. Se houver algum benefício, este pode demorar 4 a 8 semanas a manifestar-se. É importante definir um objetivo mensurável e reavaliar a sua utilidade após alguns meses, em vez de o tomar indefinidamente sem critério.
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Erros comuns a evitar

  1. 01Usar como substituto de um tratamento médico: O ginkgo não cura a demência nem a doença arterial. Nunca deve substituir um tratamento prescrito para estas ou outras condições.
  2. 02Esperar resultados milagrosos ou imediatos: As promessas de "super memória" ou "cérebro de génio" são marketing. Os efeitos, quando existem, são modestos e demoram semanas a aparecer.
  3. 03Achar que "natural" significa "sem risco": O ginkgo tem interações medicamentosas sérias e pode causar efeitos adversos. A sua segurança depende da preparação, da dose e do perfil de saúde de quem o toma.
  4. 04Não informar o médico ou farmacêutico: Manter os profissionais de saúde na ignorância sobre os suplementos que toma é perigoso e impede uma avaliação correta do risco-benefício. A perda de memória progressiva não deve ser mascarada com um suplemento, mas sim avaliada para despistar causas tratáveis, como uma deficiência de vitamina B12.

08FAQ

01O ginkgo pode prevenir a doença de Alzheimer? Não. O grande estudo GEM, com mais de 3.000 idosos acompanhados durante cerca de seis anos, mostrou claramente que o ginkgo não reduz o risco de desenvolver demência ou doença de Alzheimer em comparação com o placebo.
02Posso tomar ginkgo juntamente com o meu anticoagulante? Não sem aconselhamento médico explícito. O risco de hemorragia é plausível e documentado, justificando uma revisão cuidadosa de toda a medicação por um profissional de saúde que possa avaliar o risco versus o benefício potencial no seu caso específico.
03O ginkgo melhora a memória de pessoas saudáveis? As evidências são fracas, contraditórias e insuficientes para apoiar esta alegação. A maioria das revisões científicas de alta qualidade não encontrou um benefício consistente ou clinicamente significativo na memória ou noutras funções cognitivas em adultos saudáveis.
04Qual a melhor forma de ginkgo: cápsula, chá ou extrato líquido? A forma mais estudada e com maior consistência é o extrato seco padronizado em cápsulas ou comprimidos (como o EGb 761). Chás ou pós de folha não oferecem a mesma garantia de dose ou composição, e os seus efeitos são largamente desconhecidos.
05Quanto tempo demora a fazer efeito? Não é um suplemento de ação rápida. Nos estudos clínicos que mostraram algum efeito nos sintomas da demência, este foi observado após várias semanas a meses de uso contínuo. Não se deve esperar uma melhoria da noite para o dia.

Fontes

Estudos revistos por pares e referências institucionais usados neste artigo.

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    Revisão sistemáticaContraditório

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    mild dementia; 4 trials, 782 participants · 782 participantes

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  3. 3NCCIH· 2024
    Recomendação oficialProvável

    adults and older adults

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    Recomendação oficialProvável

    consumers of plant-based supplements

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    Estudo de coorteContraditório

    warfarin users in a large veterans database

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    Recomendação oficialProvável

    medicinal leaf preparations

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    Ensaio clínico randomizadoEstabelecido

    adults aged 75 or older with normal cognition or mild cognitive impairment; over 3000 participants · 3069 participantes

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